quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Fulano, traz uma picanha mal passada para mim...

Alguns casos de maltratos a animais ganharam um considerável espaço na mídia nos últimos tempos. É desnecessário salientar que esses fatos são absurdos e quase que impossíveis de serem entendidos. Imaginar que alguém por livre e espontânea vontade decida adotar/comprar um animal de estimação, e acabe maltratando o animalzinho é de uma estupidez indescritível. No entanto, o objetivo do meu post não é discutir essas atitudes, até porque acredito que não haja muito o que dizer a esse respeito exceto declarar meu total repudio a todo e qualquer tipo de maltrato a animais.

Gostaria na realidade de descrever uma conversa, curta por sinal, que tive com uma pessoa certa vez. O diálogo, via msn, foi mais ou menos assim:

Eu: "Adoro carne, se não tiver carne não é refeição para mim"
Fulano: "Sou vegetariano, nao como carne de nenhum tipo"
Eu: "hum...e porque você é vegetariano?"
Fulano: "Porque acho que não é correto com os animais"
Eu: "Acredito que mesmo que não consumindo carne, você com certeza consumo produtos derivados de animais"
Fulano:  "Não, tudo que consumo é derivado de plantas"
Eu:  "Você sabia que faço pesquisa usando animais como modelo, e acabo tendo que sacrificar eles para os meus experimentos"
Fulano: "..........."

Bom, nem preciso dizer que nunca mais falei com essa pessoa, ou melhor dizendo, essa pessoa nunca mais falou comigo. Várias vezes repassei essa conversa na minha cabeça procurando entender e refletir sobre o que eu disse e sobre o que, provavelmente, o "fulano" pensou.  Apesar de ser um grande consumidor de carnes (todos os tipos) não tenho nada contra as pessoas que fazem a opção por uma dieta baseada apenas em vegetais ou então dietas que excluam completamente o consumo de carnes. No entanto, sou obrigado a dizer que toda a pessoa que justifica sua opção alimentar em razão da salvação dos animais não ganha o meu respeito. Estamos, no nosso dia dia, em contato muito próximo com diferentes produtos de origem animal, como, por exemplo, cosméticos, desodorante, filtro solar, chicletes, detergentes, fósforos, etc. Dessa forma, acredito que seja muito pouco provável que alguém consiga realmente evitar todo e qualquer tipo de produto de origem animal. Assim, é hipócrita se colocar nessa posição de pessoa consciente e preocupada com o destino dos animais na natureza simplesmente por não consumir carne. A mudança de hábitos na sua vida teria de ser sim muito, mas muito mais drástica para que então a pessoa possa se declarar "animal free".

Vamos então, em um exercício de grande imaginação, considerar que o "fulano" é uma pessoa disciplinada e que realmente só consome produtos de origem vegetal. É importante dizer que os vegetais são também seres vivos, assim como os animais destacados no parágrafo anterior. O consumo de produtos de origem vegetal também tem impacto na natureza assim como o consumo de carne (e/ou produtos de origem animal). Alguém pode se apressar em dizer "mas os vegetais não sofrem, não sentem dor". Até pode ser, mas as conseguências do uso predatório de espécies vegetais tem um impacto gigantesco dentro de diferentes ecossistemas, considerando que para atender as demandas de consumo, por exemplo, de soja (muito consumido pelos vegetarianos) seja necessário o estabelcimento de grandes propriedades monocultoras, o que significa a derrubada de matas e consequente impacto no ecossistema. Ainda assim, vamos supor que o "fulano"seja disciplinado e só consuma produtos provenientes de pequenas propriedades (que normalmente estão mais engajadas na preservação do ambiente), essa pessoa poderia então, finalmente, dormir com a consciência tranquila e o sentimento de dever cumprido? Sim, considerando que essa pessoa nao consuma nenhum outro produto de origem vegetal, como por exemplo, papel. Grandes culturas de eucaliptos são usados na fabricação de papel, ou seja, existem mercados predatórios envolvidos tanto no consumo de produtos e subprodutos animais quanto vegetais. A sociedade cria e aumenta essa demanda a partir do momento que cresce de forma descontrolada.

Não estou aqui criando um quadro sem perpectivas em que a sugestão implicita no texto seja simplesmente ligar o "foda-se" e esquecer do resto. Na realidade acredito que existem mecanismos que são capazes de reduzir todo e qualquer tipo de prática anti-ética nesses mercados. Eu, como consumidor de carne, posso exigir que determinada frigorífico tenha procedimentos que sigam regras específicas de ética no trato com os animais a serem abatidos. Da mesma forma, é possivel exigir, de todas as empresas que produzem produtos derivados de vegetais, políticas de reflorestamento. Com certeza, todo sistema de controle pode sim ter seus defeitos, pessoas podem reduzir os cuidados no controle da produção e cobrar preços mais baixos pelos seus produtos. Nesse ponto entra o consumidor consciente, que pode sim deixar de consumir certos produtos em nome da ética envolvida no processo de produção.

Assim, se você está deixando de comer carne pelo bem da natureza, acredite você muito provavelmente está enganando a si mesmo, ou apenas tapando seus olhos para o real problema. Com mais ética e menos hipocrisia a natureza estaria muito mais segura do que simplesmente pelo fato de você comer tofu ao invés de picanha.

PS.: Em um próximo post falo sobre os animais de laboratório, e os absurdos de sacrificar vidas animais pelo bem da ciência...   

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