sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Revolução dos "NÃO-MIMADOS"


Queria começar esse post dando os parabéns para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) por ter sido colocada como a terceira melhor do país segundo lista divulgada pelo MEC essa semana. A UFRGS acumulou 4,3 pontos em um total de 5 pontos possíveis. Tive a oportunidade de cursar minha graduação em Ciências Biológicas na UFRGS, assim como completar o Mestrado e o Doutorado pela Departamente de Genética da UFRGS. Considerando todas as dificuldades do ensino público no país, e em especial no que se refere ao sucateamente das universidades públicas, sempre tenho orgulho ao saber que a UFRGS figura entra as melhores do país, mesmo não estando localizada no centro econômico do país, a Região Sudeste. Com certeza o que faz a UFRGS grande é o material humano disponível, começando pela grande qualificação dos professores e pesquisadores e, por fim, na excelência dos alunos. Através dos anos em que fui aluno de mestrado e doutorado, tive a oportunidade de testemunhar a dificuldade enfrentada pelos professores no dia dia, soterrados pela burocracia que permeia qualquer instituição pública do país, e mesmo assim conseguindo atingir alto nível de excelência no ensino e pesquisa desempenhados.  
A verdade é que no Brasil, as instituições públicas de ensino, felizmente, ainda significam um sinônimo de qualidade no ensino e excelência profissional. Por essa razão, é no mínimo tragicômico ler a respeito dos eventos ocorridos da Universidade de São Paulo (USP), onde um bando de baderneiros resolveu protestar em relação a presença da Polícia Militar (PM) no campus da universidade.  Com certeza os indivíduos envolvidos nesse episódio não compreendem a oportunidade única de estudar em uma universidade pública da qualidade da USP. Inconscientes disso, esses indivíduos depredaram o patrimônio público com a justificativa de reduzir a presença da PM no campus e facilitar o consumo de maconha pelos mesmos, sendo que o policiamento ostensivo do campus teve como resultado uma redução drástica nos crimes cometidos dentro do espaço físico da USP.
O episódio ocorrido na USP foi nomeado pela mídia como "A revolução dos bichos grilos mimados". Definitivamente o nome se enquadra de forma perfeita a situação relatada. No entanto, o título do episódio traz intrínseco uma profunda irônia, representada na distorção do ensino público superior no Brasil. Acredito que a palavra "mimados", corretamente colocada no título, não se refere unicamente ao motivo (inválido) do protesto dos rebeldes, mas também da classe social dos mesmos. Todos esses indíviduos tem origem nas classes médias/altas de São Paulo, pessoas que tiveram a oportunidade de estudar em colégios particulares de alta qualidade e com certeza não experimentaram todas as limitações do ensino básico/médio público no Brasil.
A verdade é que todo o nível de excelência e qualidade do ensino público superior no Brasil não privilegia as pessoas provenientes das classes baixas, o que, em um raciocínio direto e simples, representam a camada social que mais necessita do ensino superior gratuito. É quase como chover no molhado afirmar aqui que esse fato deve-se as condições precárias do ensino público de base no Brasil, ensino esse que não oferece qualidade suficiente para capacitar seus alunos a competir em condições de igualdade com os estudantes provenientes do ensino privado. Admito que eu me colocava como um extremo opositor a política de quotas no início, assim que a proposta foi pela primeira vez discutida em nível nacional. Entre vários motivos, sempre acreditei que a política de quotas, seja ela para estudantes negros ou provenientes de escola pública, iria apenas criar uma estatística falsa e acabaria permitindo ao governo omitir o real problema, que no caso seria a melhoria do ensino público de base. Além disso, a idéia de que alunos provenientes das vagas destinadas aos quotistas iriam reduzir a qualidade do ensino nas universidades públicas, uma vez que os mesmos não apresentariam os mesmo nível de conhecimentos básicos exigidos de um aluno proveniente do ingresso comum. Mesmo considerando ainda válido todos os argumentos descritos acima e que me colocavam contra a política de quotas, acredito que o Brasil precise de algo a curto prazo que possa de alguma forma corrigir as distorções acumuladas ao longo de anos de desigualdade social. Considerando o nível da política praticada no nosso país, na qual os interesses pessoais estão muito acima daqueles compartilhados pela maioria da população, fica claro que nenhuma política de longo prazo será praticada a menos que as classes inferiores possam, através do ensino e da profissionalização, ascender socialmente até uma posição em que medidas possam ser tomadas e políticas de longo prazo aplicadas.
Acredito que essa ainda seja uma discussão válida, e a solução para questões como essa com certeza só podem ser encontradas nas mentes das pessoas que passaram e tiveram a oportunidade de desfrutar de um ensino de qualidade. Pessoas que através de sua formação aprenderam a questionar o sistema em que nossa sociedade de terceiro mundo funciona. O que você acha? ...

Um comentário:

  1. Belo Texto da revolução dos mimados Dani! Bom ver o amadurecimento crítico do amigo.
    Baita abraço!

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